por Felipe Grandin, Damaris Giuliana e F.G. | Fonte: Jornal da Tarde
A partir de maio, não bastará mais dar a volta na quadra e saber estacionar o carro para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Os candidatos a motorista terão que aprender a dirigir durante a noite. Uma lei publicada ontem no Diário Oficial da União obriga as autoescolas a dar aulas noturnas de direção. A nova regra altera o Código de Trânsito Brasileiro e entra em vigor em 60 dias. Segundo a Federação Nacional das AutoEscolas (Feneauto), o custo da carteira poderá aumentar.

O número de aulas noturnas ainda será definido pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Atualmente, os aprendizes de motorista têm de comprovar pelo menos 20 horas-aula de prática, acompanhados por um instrutor autorizado.
A mudança foi proposta pelo deputado federal Celso Russomanno (PP-SP). O parlamentar defende que a experiência pode reduzir o número de acidentes. Segundo ele, especialistas são unânimes em afirmar que os condutores são responsáveis pela maioria das ocorrências noturnas. “O ato de conduzir o veículo à noite exige precauções adicionais, atenção redobrada”, diz o deputado.
A medida é apoiada pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet). Segundo a entidade, 40% dos acidentes de trânsito com vítimas em São Paulo ocorrem no período da noite.
“A direção noturna é completamente desconhecida para quem acabou de sair da autoescola”, afirma Dirceu Rodrigues Alves Junior, diretor da Abramet. “Durante a noite, um farol alto pode deixar o motorista sem enxergar por 3 ou 4 segundos”, afirma. “Quem acabou de tirar a carteira passa esse tempo perdido, porque ainda não tem sensação de distância. E o carro pode estar a 100 km/h.”
A Federação Nacional das Autoescolas (Feneauto) afirma ser “favorável a qualquer mudança que melhora a formação dos condutores”, mas não acredita que a lei vá pegar. “Acho difícil o cumprimento porque os Detrans (departamentos de trânsito) não têm como fiscalizar as aulas”, diz Magnelson Carlos de Souza, presidente da Feneauto.
Souza levanta um outro problema: a legislação estadual limita o funcionamento dos Centros de Formação de Condutores até as 20 horas, deixando apenas uma ou duas horas para as aulas noturnas. “Teria que mudar essa regra ou comprar mais carros para atender a demanda, o que provocaria um aumento do preço”, diz. De acordo com ele, se o Contran aumentar a carga horária para além das 20h, o custo ficará mais alto.
A crítica é reforçada pelo Sindicato das Auto Moto Escolas e Centro de Formação de Condutores de SP. “Vamos precisar de mais instrutores e carros. Isso vai onerar o aluno”, diz o presidente José Guedes Pereira. “O setor não foi ouvido. Daqui a pouco aparece outro legislador dizendo que tem que ter aula com chuva, com vento, na neblina.”
MEDIDA DIVIDE OPINIÕES - A aprovação da lei que obriga os novos condutores a terem aulas noturnas divide opiniões. Para a instrutora Marilza Minato, de 53 anos, da Lotus Auto Escola, no Bom Retiro, região central, a medida é absurda. “O que estão fazendo não leva em consideração a segurança. A gente não pode ficar em qualquer lugar. Tem muita rua sem iluminação, sem polícia”, argumenta.
“Se a pessoa não tiver consciência, pode ter aula à noite que não vai adiantar nada”, avalia. “Pode ter feito 30 horas, terminou o curso, pegou a carta, ele faz o que quer. Foi má instrução? Não. Olha o que tem de filho de deputado e deputa0do que sai por aí bebendo, dirigindo e matando”, afirma.
Para saber no que a decisão vai influenciar, “primeiro é preciso saber o que vão exigir, a partir de que horas, quantas aulas”, pondera o dono da Brooklin Auto Escola, na zona sul, Arnaldo Macedo Júnior, de 61 anos. Ele não acredita que as aulas noturnas ajudarão a formar condutores mais habilidosos. “Não é uma coisa que vai aperfeiçoar.”
Já Fábio de Marmo Silva, de 39 anos, dona da Marechal Auto Escola, em Santa Cecília, na região central, acredita que a medida pode ajudar na formação. Mas ele ainda não sabe qual o custo da mudança. “O custo não necessariamente será para o aluno, mas meu horário é até 19 horas. Vou ter que contratar mais instrutores”.
A má qualidade da formação dos motoristas é reconhecida até pelos próprios instrutores de autoescola. “A prova para tirar a carta é muito mais psicológica do que prática”, diz o supervisor da Auto Escola R5, na Lapa, Daniel Souza Paião. “Você acha que uma volta no quarteirão avalia se uma pessoa sabe dirigir? Eu acho que não”. Segundo ele, a aula noturna não basta para melhorar a direção. “É útil, mas não muda nada.”
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